quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Banda

Quando Music From Big Pink foi lançado em 1968, o mundo se perguntou que banda era aquela que fazia um som indefinível, misturando rock, blues, country, soul e gospel com outros ritmos tradicionais americanos, em músicas habitadas por personagens que podiam ser reais ou apenas figurantes de um passado esquecido em algum lugar no sul dos EUA.
Era uma época de rebeliões e lutas pelos direitos civis em todo o planeta, e, enquanto a maioria bandas de rock adotava nomes mirabolantes e fazia músicas com arranjos intermináveis e sons psicodélicos, o mundo conheceu uma banda simplesmente chamada “The Band”.
Apesar da fama só chegar em 1968, a história do quinteto formado por quatro canadenses e um filho de fazendeiro do Arkansas começou 10 anos antes, quando eles formavam a banda de apoio do cantor de rockabilly Ronnie Hawkins’ Hawks, fazendo o circuito de bares e clubes de Toronto e do sul dos EUA.
Em 1964, já como banda independente (na época, usaram vários nomes, como The Crackers), tocaram em Nova York e atraíram a atenção de Bob Dylan, que os contratou como banda de apoio, começando uma parceria que renderia frutos maravilhosos ao longo dos anos.
Em 1966, após um acidente de moto que hoje é lendário, Bob Dylan foi morar recluso em Woodstock, região no interior do estado de NY, e “a banda” o acompanhou no exílio. Enquanto gravavam com Dylan o material que posteriormente saiu no álbum The Basement Tapes, eles começaram a trabalhar no seu próprio disco.
Gravado no porão da casa em que boa parte da banda morava em Woodstock, chamada de Big Pink (daí o titulo do disco), o álbum apresentou pela primeira vez as composições intrigantes e a guitarra crua e pontuda de Robbie Robertson, o vibrante baixista e vocalista Rick Danko, o genial multi-instrumentista Garth Hudson, o pianista e dono de uma voz sublime Richard Manuel e o cantor-baterista Levon Helm (único americano da banda), cuja musicalidade transmite toda sua herança musical do sul dos EUA. Juntos, os três cantores da banda fizeram trabalhos de harmonia vocal incríveis.
A falta de publicidade, de shows e entrevistas de divulgação não impediu que Music From Big Pink virasse um sucesso imediato, influenciando rapidamente gente como Eric Clapton e George Harrison. Na verdade, a reclusão dos membros da banda só aumentou as especulações em torno de suas figuras. Quando começaram as aparições públicas, as pessoas notaram que, assim com a música, os músicos também pareciam vir das montanhas, com suas roupas rústicas e barbas.
O disco que viria depois, batizado apenas como The Band, em minha opinião, é ainda melhor. O clima de enigma permanece, mas o forte teor histórico e cultural presente nas faixas dão uma força incrível ao álbum. Todas as músicas foram compostas por Robbie Robertson, sendo duas em parceria com Richard Manuel e uma com Levon Helm, o que não diminui em nada o senso de coletividade na audição.
Logo na primeira faixa, Across the Great Divide, Richard Emanuel dá um show de interpretação. Rag Mama Rag, a segunda música, mostra a versatilidade da banda, com Richard na bateria, Levon Helm cantando e tocando mandolin, Rick Danko na rabeca e o produtor John Simom na tuba (a musica não tem baixo). Porém, o destaque, pra mim, é o piano de Garth Hudson.
The Night They Drove Old Dixie Down é a terceira faixa do disco e um dos hinos da banda - uma aula de história escrita por Robbie Robertson e interpretada por Levon Helm numa performance de arrepiar. A letra resgata a vida no sul dos EUA contada do ponto de vista de Virgil Caine, um fazendeiro do Tennessee que serviu ao exército confederado e luta para sobreviver com sua esposa – a música quebra o estereótipo do sulista redneck e escravocrata, um tema caro até hoje para muita gente nos EUA. Na verdade, o álbum inteiro é inspirado no sul dos Estados Unidos. A Guerra Civil Americana, assim como as feridas deixadas por ela, é um dos temas abordados. Dessa forma, o crítico musical e cientista social Greil Marcus, define The Band como “um passaporte de volta para pessoas que se tornaram estranhas em seu próprio país”.
Up On Cripple Creek, faixa 5, foi o compacto de maior sucesso da banda, onde o clavinete tocado com pedal wah-wah por Garth Hudson, que dá uma pitada de funk à musica é o grande destaque. A música seguinte é Wispering Pines, um belo exemplo da capacidade vocal de Richard Manuel. Na penúltima música, The Unfaithfull Servant, é a vez de Rick Danko brilhar na interpretação. Finalmente, o disco fecha com King Havest (Has Surely Come), outro momento de coletividade brilhante. Apesar de ter citado só algumas preferidas, o álbum inteiro esbanja criatividade. Assim como num disco de Ray Charles (grande ídolo de Richard Manuel), a música pode soar religiosa num momento para, em seguida, parecer profana.
“A Banda” seguiu lançando discos com sua formação clássica até 1976, quando Robbie Robertson largou o grupo definitivamente depois do projeto The Last Waltz, um sensacional filme-concerto dirigido por Martin Scorsese e produzido pelo próprio Robbie. Mas sem dúvida, The Band é seu disco mais consistente.
Na década de 1980, The Band voltou sem o seu guitarrista original e principal compositor, mas encerraram atividades após Richard Emanuel cometer suicídio. “A Banda” ainda voltaria com outra formação na década de 1990, mas outra tragédia forçou seus integrantes a pararem mais uma vez: o falecimento de Rick Danko devido a uma parada cardíaca.
Essa é história da The Band contada de forma breve (mas com respeito e admiração). Pra mim, ela soa exatamente como a voz de Richard Manuel: linda, mas revestida de um profundo senso de melancolia.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Eleições 2010. A busca pelo sucesso de Obama na internet.

Abaixo, reproduzo artigo meu postado sexta-feira passada no blog da Morya Comunicação sobre o papel das redes sociais nas eleições americanas de 2008 e o que pode ser feito de parecido no Brasil. Para acessar o blog, é só acessar o http://www.moryando.com.br/. Recomendo.

Eleições 2010. A busca pelo sucesso de Obama na internet.

Mais de um ano depois da vitória de Barack Obama nas eleições estadunidenses de 2008, muito ainda se fala sobre a atuação de sua campanha na internet, mais especificamente nas redes sociais. No Brasil, o interesse pelo assunto se deve principalmente ao fato de estarmos em ano eleitoral e, com o sucesso da campanha online de Obama, é natural que os políticos “tupiniquins” e suas equipes estejam em polvorosa com as possibilidades oferecidas pela internet.
O case da campanha de Obama é mesmo fantástico – um jovem advogado negro, formado em Harvard, filho de muçulmanos, nascido e criado no Havaí, e que chegou à presidência do país mais influente do mundo. Sua campanha contou com uma adesão popular nunca vista numa eleição daquele país. O fato é que, em 2007, no início da corrida eleitoral, o então senador do estado de Illinois era conhecido apenas como um jovem democrata negro e idealista, e sua popularidade só começou a crescer quando a campanha ganhou a internet. Como outros conjuntos de ações digitais de sucesso, o grande mérito da campanha de Obama na rede foi por atuar onde os eleitores estavam, e não onde sua equipe gostaria que eles estivessem. Isso significou estar presente nas mais diversas redes sociais – desde as mais tradicionais, como o Facebook, o Youtube ou o Flickr a outras mais segmentadas para públicos específicos, como a Migente.com (destinada a emigrantes e descendentes de latinos) ou o Asianave (destinada aos asiáticos). Em todas elas, Obama possuía widgets – pequenas janelas com links para suas páginas de doação – possibilitando aos internautas fazerem suas contribuições financeiras dali mesmo. Apesar de toda essa disseminação, a campanha na internet girava em torno de uma rede própria, a Mybarackobama.com, onde os usuários criavam seus grupos de discussão e páginas próprias para arrecadar doações, podendo participar ativamente da campanha com sugestões de pauta. Como resultado, o candidato democrata passou a contar com uma infinidade de conteúdos gerados por usuários: mais de 500 grupos do Facebook; fotos no Flickr oficial da campanha, em sua maioria, feitas por fotógrafos amadores; mais de 500.000 resultados gerados na busca pelo nome “Obama” no Youtube; criação do Youbama, site amador com as mesmas ferramentas do Youtube, mas com o objetivo de promover a campanha democrata.
De todas as redes sociais onde Obama atuou, a que mais chamou a atenção foi o Twitter, pois com mais de 1 milhão de seguidores, a campanha dele ajudou a popularizar a rede/ferramenta. O interessante é que, pessoalmente, o candidato Obama nunca escreveu sequer uma linha no Twitter, conforme já declarou em algumas entrevistas. As atualizações ficam por cargo de uma equipe de assessores, que mantêm o perfil ativo até hoje. Isso pode parecer impessoal ou até frio, mas evita que o candidato cometa qualquer tipo de gafe, como tem acontecido com alguns políticos brasileiros.
Outra “sacada” da campanha de Obama foi lançar um aplicativo para Iphone que ajudava os usuários do telefone a organizar suas listas de contato, de acordo com quem eles já convenceram a votar no candidato democrata e os que ainda faltavam ser convencidos. O aplicativo também listava notícias e eventos da campanha de Obama.
Os famosos virais também ganharam grande destaque. Vídeos no Youtube foram vistos por milhões de pessoas. Muitos vídeos eram oficiais, produzidos pela equipe de Obama. Outros, feitos pelos próprios eleitores. Alguns virais contaram com forte adesão de artistas, que agregaram suas imagens à campanha. Abaixo, segue um belo exemplo:
Outro viral que fez muito sucesso foi o criado em cima do famoso filme “Wassup”, criado para a cerveja Budwiser em 2000. Oito anos depois, os mesmos atores que atuaram no filme original gravaram uma sequência especialmente para a campanha de Obama. Abaixo, seguem os dois filmes:
Mesmo depois de eleito, a relação de Barack Obama com a internet continua estreita. Durante o período de transição, entre a eleição e a posse, foi criado o hotsite Change.gov, no qual os americanos postavam mensagens, sugestões e opiniões sobre temas relevantes ao país. Depois de sua posse, o site da Casa Branca foi totalmente reformulado e agora abriga um espaço nos moldes do Change.gov. O Twitter de Obama continua sendo atualizado e a Casa Branca também ganhou um perfil próprio. Já o canal da Casa Branca, no Youtube, passou a receber muito mais conteúdo e não apenas os discursos do presidente, como na era George W. Bush.
Mas, se é verdade que a revolução promovida pela rede mundial de computadores mudou para sempre o universo da comunicação e da informação, também é fato que eleições democráticas são um terreno irregular, onde particularidades geográficas e sociais fazem toda a diferença. Ou seja, o que vale para os Estados Unidos não pode ser dado como certo para o Brasil. Um grande trunfo da campanha de Obama foi, por exemplo, os altos valores de dinheiro arrecadados através da internet. No Brasil, é improvável que algo parecido aconteça, pois a intimidade dos brasileiros com transações financeiras online ainda está muito aquém da dos americanos. Ainda assim, a internet, que ficou de fora das últimas eleições brasileiras por questões judiciais, pode ter um papel fundamental nas de 2010, principalmente no que diz respeito à inclusão dos jovens no debate político. Nas casas de classe média ou nas lan houses da periferia, todos com idades entre 16 e 25 anos estão conectados a redes sociais, blogs e menssegers. Para os candidatos que irão concorrer nas eleições brasileiras de 2010, fazer-se presente nesses canais significa se comunicar com os jovens pelos meios que estes adotaram como seus. E mais importante: surge uma possibilidade real de incluir toda uma geração na discussão sobre o futuro do nosso país.

domingo, 21 de março de 2010

Lembrando Ayrton Senna.

Se estivesse vivo, Ayrton Senna completaria hoje 50 anos de idade, data que está sendo muito bem lembrada na internet e também na Rede Globo. Senna foi um dos grandes heróis da minha infância e hoje continua um ídolo pessoal, mais pelo exemplo de dedicação e pelo que fez nas pistas do que por essa história de “herói nacional” ou “do tempo em que valia a pena acordar cedo aos domingos” (pra quem gosta de corridas, como eu, sempre vale).
É inegável que Senna foi um gênio das pistas. Além disso, tinha carisma e uma vocação imensa para atrair os holofotes e ser protagonista, o que também explica o fascínio que sua figura exerce sobre as pessoas em todo o mundo. E sua morte prematura, ainda mais da maneira que aconteceu, só ajudou a alimentar o mito. Quando morei no Japão, no começo da década de 90, pude ver de perto o fanatismo dos orientais pelo piloto brasileiro – coisa que só seus títulos guiando carros impulsionados por motores Honda não justifica. Daí que, lendo o blog do jornalista Flavio Gomes, me deparei com um vídeo (youtube) de um programa humorístico japonês que tem Senna como convidado. Detalhe: eu vi esse programa na noite em que ele foi veiculado, em minha casa na cidade de Toyama. O programa era muito popular e costumava receber esportistas famosos para disputas com um dos dois comediantes que faziam o show. Lembro de ver Zico e Maradona participando de disputas de pênalti e Michael Jordan jogando basquete. No caso de Senna, foi o Kart. Ao rever as cenas pelo youtube, me veio à memória a ansiedade generalizada que o anúncio da presença do piloto no programa causou. Na escola onde estudei, por exemplo, só se falava nisso.
Como o próprio Gomes colocou, o programa mostra um Senna diferente do que estamos acostumados a ver nas homenagens póstumas. O vídeo mostra uma pessoa divertida, sempre se esforçando para entrar na brincadeira do caricato e inocente humor japonês. Há momentos engraçadíssimos, como o episódio do boné na segunda parte, além de um sarro com Prost e Mansell. Durante todo o programa, a idolatria pelo brasileiro fica evidente, seja nas atitudes dos comediantes, seja na reação da platéia no estúdio a cada ação de Senna.
Segue abaixo a primeira parte do vídeo. As seguintes podem ser vistas a partir dela. Como Senna fala inglês, é possível entender bem o rumo das conversas. Além disso, ele dá um show no kart.

De olho na propaganda e no marketing eleitoral.

Em 2008, escrevi um artigo para o Jornal do Commercio, no qual fiz um balanço da propaganda eleitoral praticada para as eleições municipais daquele ano. O tema sempre me interessou. Na graduação, fiz um extenso trabalho sobre o marketing político de Fernando Collor em 1989 e, mais recentemente, desenvolvi minha monografia para o curso de MBA em Marketing abordando o papel das novas mídias na campanha de Barack Obama.
Mas voltando ao texto, ele é mais uma reflexão sobre o dia a dia de um eleitor comum cercado pelas campanhas eleitorais do que uma análise técnica sobre publicidade ou marketing. Com uma nova eleição prestes a ganhar as ruas (e também a internet, finalmente), acho que vale a pena voltar ao tema. Segue baixo o artigo.

Photoshop, photoshop meu...
Um olhar geral pela atual propaganda eleitoral praticada pelos candidatos e partidos desperta algumas observações. Em relação ao horário político gratuito no rádio e na televisão, analisando superficialmente, pouca coisa mudou. Os que têm mais recursos e tempo apresentam uma produção mais caprichada, com edições, jingles e slogans mais elaborados e atraentes. Os que não têm, tentam se fazer escutar quase à tapa naquele curtíssimo espaço de tempo.
Não é a toa que muitos consideram esta a parte mais interessante do guia. É aqui que vemos as pessoas “reais”, com suas expressões, olhares, vozes, coragem (às vezes cara-de-pau, mesmo), origens e, de vez em quando, até idéias.
Em outra frente de batalha, vem a propaganda nas ruas. Ao andar pelo Recife nestes tempos eleitoreiros, duas coisas chamam a atenção. A primeira foi a diminuição do número de entregadores de material publicitário dos candidatos nos sinais, os famosos panfletos, flyers, santinhos, calendários, etc.
Além de nós, cidadãos, que todos os dias éramos obrigados a juntar uma quantidade absurda de papel, a cidade e o meio-ambiente também agradecem essa redução, já que os impressos representavam um problemão para a nossa precária infra-estrutura. Apesar disso, não estamos livres de um outro tipo poluição: a visual. O responsável por esta, são os chamados prismas, aquelas peças com a foto do candidato que disputam espaço com os pedestres nas calçadas da cidade.
Se acreditarmos nos discursos dos candidatos, que se dizem tão afinados com práticas sustentáveis, a preocupação com possíveis danos ao meio-ambiente este ano será menor. Sendo assim, o que incomoda tanto em relação aos prismas? Seria o bizarro colorido que o conjunto total representa? Ou os tijolos deixados nas calçadas após serem usados para sustentar as peças diante da ventania (uma pena, pois seria divertidíssimo ver enormes rostos sorridentes voando pelas ruas, carregados pelos fortes ventos da primavera)! Estou falando do uso exagerado de programas de manipulação de imagem usados para dar um trato, digamos assim, nas fotos de alguns candidatos.
É certo que são ferramentas fantásticas e representam um enorme avanço na criação e produção da comunicação visual. Mas como tudo o que é bom, deve-se saber a medida de usá-lo. Reparem no desfile gratuito de dentes branquinhos, peles de nenê e cabeleiras fartas e brilhosas. Ou como aquele candidato ou candidata que, na TV, fala do alto da experiência que só a idade lhe proporciona, na foto da esquina está, digamos... Diferente.
Esta, no entanto, não é uma questão que diz respeito somente à publicidade e à propaganda. O uso da tecnologia digital no jornalismo de imagem também tem despertado polêmica. Um caso recente foi o suposto acréscimo de fogos de artifício à transmissão da abertura dos jogos olímpicos de Pequim. Para o fotojornalismo, por exemplo, o tema parece ser bastante delicado. Afinal, quem nunca viu uma imagem ou fotografia na internet e se perguntou se aquilo era verdade ou montagem?
Obviamente a imagem é parte fundamental da comunicação. E na propaganda política, especificamente, se trata de uma poderosa arma eleitoreira. No entanto, diante do alto sentimento de desconfiança dos brasileiros em relação à classe política nativa, me parece que o desejo coletivo é de ver candidatos mais “reais”, que não tem medo se expor suas imperfeições físicas nem humanas - candidatos mais parecidos com aqueles citados no início deste texto, e não bonecos e bonecas de porcelana.
O fato é que, os que entram para a política já deviam saber que, na vida, ainda mais se tratando de trajetórias públicas, a maneira mais eficiente e honesta de se construir uma imagem não é com photoshop. Mas com atitudes.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Menos razão e mais sentimento.

Assisti ao filme A Cor do Paraíso pela primeira vez numa aula de história da arte, ainda na universidade, e me marcou muito, contribuindo para quebrar meus preconceitos com o cinema feito fora de Hollywood.
A produção é iraniana e conta a história de um menino cego de 8 anos, órfão de mãe, que estuda numa escola especial. Quando seu pai resolve se casar de novo, ele vê o filho como um embaraço. O filme deu notoriedade mundial ao diretor Majid Majidi e é de uma sensibilidade cortante. Talvez porque estamos todos desacostumados a ser sensíveis. Bom, a cena abaixo diz tudo.


quinta-feira, 11 de março de 2010

Vai começar.

A Formula 1 está de volta neste fim de semana. Quando os 24 carros inscritos nesta temporada derem largada às 9h (horário de Brasília) para o GP do Bareihn, vai começar um dos campeonatos mais interessantes dos últimos tempos. Não faltam argumentos para chegar a essa conclusão: o primeiro deles, em minha opinião, é a volta do heptacampeão Michael Schumacher, agora pilotando para a Mercedes, que comprou a Brown, equipe campeã do ano passado. Também veremos 3 times novos, cinco pilotos estreantes e quatro campeões do mundo juntos no grid.
Há também as mudanças no regulamento. Em 2010, pontuam os dez primeiros colocados. O fim do reabastecimento é outra alteração que deve ser decisiva e levará a estratégias completamente diferentes das que vimos nos últimos anos. Por ultimo, os pneus: os dez primeiros do grid terão de largar com os pneus usados no Q3, última e decisiva fase do treino que define o pole position e demais colocações.
Quanto às chances brasileiras, teremos quatro pilotos e situações bem distintas. No fundo do grid, Lucas Di Grassi e Bruno Senna. O primeiro chega à F1 depois de muita luta e já apresentou seu talento nas categorias de base, mas vai guiar pela Virgin, uma das três equipes estreantes, e que dividiu o fundão das tabelas nos testes da pré-temporada com a colega iniciante (falsa) Lotus.
Bruno Senna vai fazer a alegria dos saudosos do seu tio Ayrton, levando de volta à categoria o lendário sobrenome e o capacete amarelo com listra verde. Mas a verdade é que ele vai precisar de muita sorte, já que sua equipe, a Hispania Racing Team, não fez um teste sequer. Velocidade, ele mostrou que tem. Mas sua curta carreira no automobilismo não nos deixa dizer muito mais que isso.
Já Rubens Barrichello deve andar na zona de pontos. Salvo um grande salto de competitividade da Williams, dificilmente vai brigar por vitórias, coisa que a lendária equipe não consegue há muito tempo.
Na ponta, Felipe Massa. Depois do que a Ferrari mostrou na pré-temporada, é justo colocá-lo entre os favoritos ao título. Mas para isso acontecer, Massa precisa andar na frente do bicampeão Fernando Alonso, considerado por muitos o melhor piloto da atualidade. Resta saber se esse favoritismo da equipe de Maranello vai se concretizar. Especialistas têm apontado Red Bull e McLaren também como candidatas ao título, com a Mercedes logo atrás. Agora, é esperar o fim de semana pra ver.


O exílio dos stones.

Há alguns dias, saiu a notícia de que o Exile On Main St, clássico dos Rolling Stones de 1972, será relançado em três formatos diferentes: o álbum original remasterizado, um CD duplo com 10 faixas inéditas acrescentadas e, por fim, uma caixa de luxo com o álbum duplo em vinil, um livro de 50 páginas e um DVD com o documentário inédito Stones in Exile, que será exibido pela BBC no dia 17 de maio, data também marcada para o relançamento do álbum.
Objeto de culto até hoje, o Exile... é um disco tão sensacional quanto a história do seu processo de gravação. Existem, inclusive, vários livros retratando as aventuras dos Stones neste período em que eles se “exilaram” no sul da França para fugir dos impostos ingleses, compor, gravar e, principalmente, fazer muita farra. Um deles, talvez o mais famoso registro, ganhou uma edição brasileira, o Uma temporada no inferno com os Rolling Stones, de Robert Greenfield, lançado pela Jorge Zahar Editora.
Mas falando de música, o Exile On Main St lembra em alguns aspectos o álbum branco dos Beatles pela sua diversidade e espírito anárquico. Mas apesar de toda a liberdade artística usufruída pela banda, há unidade entre as músicas: durante todo o disco o som é sujo e maciço (ouça a faixa de abertura, Rocks Off, ou o bluesão Ventilator Blues), o que não quer dizer que não exista momentos de beleza, como  Loving Cup ou Shine a Light. Há também o mega hit Tumbling Dice, com uma das melhores performances vocais de Mick Jagger ou Happy, clássico de Keith Richards . Keith, por sinal, compôs alguns dos seus riffs mais memoráveis e toscos neste disco, o que faz um contraponto excelente com a guitarra de Mick Taylor (que ainda gravaria mais dois discos como um stone), mais técnica e refinada.
Talvez o Exile On Main St não tenha tantas músicas radiofônicas como o Let It Bleed ou a produção caprichada do Stick Fingers, mas é um disco que nos reserva novas descobertas a cada audição e, toda vez que você termina de escutá-lo, ele te deixa com aquele sorriso de quem acordou de ressaca e continua deitado, ainda no clima da festa, se divertindo com as lembranças da última noite.
A revista Rolling Stone americana está com uma ótima entrevista em seu site com Mick Jagger, Keith Richards e Don Was, produtor da banda, sobre este relançamento. Pra conferir, é só clicar aqui.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Guerra ao Terror

Na última sexta-feira, estive no cinema multiplex do Shopping Recife para a exibição do filme Guerra ao Terror (The Hurt Locker, EUA, 2009). A ocasião marcou a abertura da programação especial do UCI Recife dedicada aos filmes que estão concorrendo ao Oscar 2010. O convite me foi feito pelo jornalista e crítico de cinema Bernardo Queiroz, que também é meu primo. Depois da projeção, há sempre um bate-papo com dois críticos convidados, tarefa que, na sexta, ficou a cargo de Bernardo e Leo Peixe.
Guerra ao Terror conta a história de um grupo de soldados americanos, especialistas em desarmar bombas, na guerra do Iraque. A seqüência inicial, que por sinal é fantástica, mostra um conflito peculiar, uma guerra essencialmente urbana, numa atmosfera de paranóia constante vivida pelos soldados, acompanhada de uma contagem regressiva para voltar para casa.
Apesar de a tensão psicológica ditar o ritmo do filme, Guerra ao Terror, em minha opinião, também pode ser visto como um excelente filme de ação, com cenas de combate muitíssimo bem filmadas, alternando seqüências mais “nervosas”, quase como um documentário, com edições mais tradicionais do gênero. Também chama a atenção para o uso de câmera lenta em algumas cenas, que são de tirar o fôlego. Apesar disso, o filme também apresenta momentos de grande sensibilidade, onde os efeitos da guerra no homem são demonstrados na figura do protagonista.
O filme está indicado a nove Oscars. A diretora do filme, Kathryn Bigelow, também está concorrendo à estatueta de melhor direção, prêmio que não dele levar. Nesta categoria, o favorito é seu ex-marido, James Cameron, de Avatar. Mas aos que acham curioso o fato de uma mulher dirigir um filme de guerra, aqui vai um aviso: Guerra ao Terror é um filme para fã do gênero nenhum botar defeito.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Oito anos.

Tudo começou num fim de tarde em Porto de Galinhas. Depois, nas ladeiras de Olinda, selamos um compromisso que foi amadurecendo ao longo dos anos. Nem sempre foi fácil. Às vezes, é difícil até. Mas a gente segue em frente porque a vontade de estar junto é sempre maior do que qualquer dificuldade.
A vida nos reserva pouquíssimas certezas. E a certeza de termos um ao outro é um privilégio – uma verdade que alimenta os nossos mundos, nos faz sonhar, sorrir e nos levanta naqueles momentos em que nada parece se sustentar.
É ela quem sabe das coisas. Mesmo sem morarmos juntos, ainda, ela dá o ritmo às nossas vidas. É ele quem dita meu humor com seus longos silêncios e seus sorrisos iluminados. Meus defeitos, ela os corrige. Ela só não sabe que morro de medo de perdê-la.
Oito anos. É por nós dois que o frevo e o maracatu vão ecoar pelas ruas de Recife e Olinda nos próximos dias.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

“Estou sempre dizendo 'prazer em conhecê-lo' para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer". Holden Caulfield

O primeiro contato que tive com O Apanhador no Campo de Centeio foi lendo algo relacionado a Mark Chapman, assassino de John Lennon. Chapman teria dito que a “explicação” para o seu ato pode ser encontrada nas páginas do livro. Eu tinha uns 15, 16 anos.
Na mesma época, li o livro e o que descobri não foram respostas para um ato de insanidade (até porque loucos não precisam de motivos para cometer loucuras), mas a história de um adolescente que sofre por ter uma sensibilidade extremante aguçada, num mundo cheio de cinismo e falso moralismo. As aventuras de Holden Caulfield, narrador e personagem central do livro, são acompanhadas de suas conclusões pessimistas e cheias de humor negro sobre tudo e todos os que o cercam, inclusive sobre si mesmo – sempre num tom coloquial, com frases que parecem sair da boca do protagonista direto para as páginas do livro.
The Catcher In The Rye (título original de O Apanhador…) foi lançado em 1951 e tornou-se imediatamente um best seller. Seu autor, J. D. Salinger, também ficou famoso por não querer ser famoso e viveu recluso por mais de 50 anos. Ele morreu hoje, aos 91 anos de idade em sua casa, na cidade de Cornish, N.H., Estados Unidos. Sua obra se resume a O Apanhador..., a coleção de contos Nove Estorias, além de duas compilações, cada uma com duas longas estórias.
Numa das passagens mais famosas de O Apanhador no Campo de Centeio (e uma de minhas preferidas), Holden Caulfield diz que livro bom é aquele que, quando a gente termina, tem vontade de ficar amigo do autor e ligar pra casa dele sempre que tiver vontade. Com sua opção pela reclusão, J.D. Salinger frustrou milhões de pessoas que um dia sonharam em trocar algumas palavras com o autor do seu livro preferido.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Cavalheirismo.

(Pegando o embalo publicitário) - Não conhecia esse filme do Chivas. Ótimo texto, mensagem oportuna. Principalmente se avaliarmos que, há tempos, o sentido do termo "ser homem" é distorcido. Em relação ao desfile de terno no final, dêem um desconto. Afinal, é um filme do Chivas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Valor agregado.

Um tio meu (fã de Eric Clapton, vale dizer) admitiu que o aparelho é lindo, mas desaconselhou. A justificativa foi a de que já teve um celular dessa marca e o danado só durou dois meses. “R$ 800,00 jogados no lixo”, disse ele. “E daí? Eu não iria usar como celular mesmo”, respondo eu.




segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Mais uma faceta de Eric Clapton

Apesar de ser, na essência, um músico de blues, Eric Clapton é um artista de discografia eclética. Já gravou pop, funk, soul, raggae, música eletrônica, psicodélica, gospel, country, jazz e, é claro, rock’n’roll. No final da década de 60, no entanto, ele estava numa encruzilhada musical. Depois do imenso sucesso com os Yardbyrds, John Mayall’s Bluesbreakers e Cream - com direito a ter seu nome pichado nas ruas de Londres com os dizeres “Clapton is God” -, o guitarrista estava insatisfeito com o direcionamento de sua carreira e cansado da imagem de virtuose das seis cordas. Em sua autobiografia, ele conta que os shows do Cream haviam se tornado um veículo para o exibicionismo dos seus integrantes, com os três músicos solando ao mesmo tempo, voando alto em seus egos. Na mesma época, ele escutou o álbum de estréia da The Band, Music From Big Pink, e foi arrebatado pela simplicidade e lirismo do disco. A vontade de produzir um som mais voltado para a “música” do que para o virtuosismo culminou no surgimento do Blind Faith, que contava com os amigos Steve Winwood (Traffic) e Ginger Backer (também do Cream). A proposta inicial de criar uma música mais “rica na simplicidade”, no entanto, ficou para trás quando o Blind Faith se viu numa turnê megalomaníaca pelos EUA, com um Clapton acuado no papel de coadjuvante. Somou-se a essa frustração o fato de o guitarrista estar cada vez mais envolvido pelo som produzido pela trupe de Delaney and Bonnie, banda de abertura do Blind Faith.

Delaney e Bonnie Bramlett eram casados, sendo os primeiros artistas brancos a assinar com Stax, famosa gravadora do sul dos EUA, voltada para o soul. A banda de apoio dos Blamletts era formada pela cantora Rita Coolidge, por Jim Price e Bobby Keys nos metais, pelo tecladista Bobby Whitlock, pelo baixista Carl Radle e pelo baterista Jim Gordom. Com o tempo, todos eles se tornariam músicos conhecidos e tarimbados, sendo que os três últimos ainda acompanhariam Clapton no Derek and the Dominos. Em sua biografia, Eric Claton conta que o relacionamento desses sulistas americanos com a música era contagiante. Sua rotina era subir no ônibus com os instrumentos e tocar o dia inteiro. Logo Clapton se viu viajando e andando com eles, deixando de lado a sua banda.
Depois de sua primeira e única turnê, o Blind Faith se desfez e Clapton logo passou a excursionar com os Bramletts, experiência que culminou no disco Delaney e Bonnie and Friends – On Tour With Eric Clapton. Na época, Dalaney começou a convencer Clapton a gravar seu próprio disco e se desenvolver como front man. Meses depois, Eric Clapton estava gravando seu primeiro álbum solo tendo a trupe de Delaney e Bonnie como banda de apoio, além do grande Leon Russel no piano. O disco foi batizado simplesmente de Eric Clapton e o resultado, não por acaso, é uma poderosa mistura de blues-r&b-contry-soul, com o guitarrista caprichando no vocal, nitidamente influenciado pelo estilo gospel de Delaney. No lugar dos longos e furiosos solos dos tempos de Cream, a guitarra de Clapton aqui é econômica e levemente calcada no funk. O disco, coeso e divertido, é realmente uma pérola da música pop e uma prévia do que viria pela frente: o clássico Layla and Other Assorted Love Songs, em minha opinião, um dos melhores álbuns de todos os tempos.
A boa notícia para os fãs brasileiros é que a edição “deluxe” de Eric Clapton ganhou uma versão nacional, um álbum duplo que apresenta em seu disco 1 a versão já conhecida remasterizada e mais alguns extras. A surpresa fica pelo disco dois, que contem o álbum mixado pelo próprio Delaney Bramlett. A diferença é a presença mais constante dos metais no segundo disco, além de alguns cortes e vocais de apoio diferentes. A caixinha, caprichada em fotos e textos, é um verdadeiro presente para quem gosta de música.