Quando Music From Big Pink foi lançado em 1968, o mundo se perguntou que banda era aquela que fazia um som indefinível, misturando rock, blues, country, soul e gospel com outros ritmos tradicionais americanos, em músicas habitadas por personagens que podiam ser reais ou apenas figurantes de um passado esquecido em algum lugar no sul dos EUA.
Era uma época de rebeliões e lutas pelos direitos civis em todo o planeta, e, enquanto a maioria bandas de rock adotava nomes mirabolantes e fazia músicas com arranjos intermináveis e sons psicodélicos, o mundo conheceu uma banda simplesmente chamada “The Band”.
Apesar da fama só chegar em 1968, a história do quinteto formado por quatro canadenses e um filho de fazendeiro do Arkansas começou 10 anos antes, quando eles formavam a banda de apoio do cantor de rockabilly Ronnie Hawkins’ Hawks, fazendo o circuito de bares e clubes de Toronto e do sul dos EUA.
Em 1964, já como banda independente (na época, usaram vários nomes, como The Crackers), tocaram em Nova York e atraíram a atenção de Bob Dylan, que os contratou como banda de apoio, começando uma parceria que renderia frutos maravilhosos ao longo dos anos.
Em 1966, após um acidente de moto que hoje é lendário, Bob Dylan foi morar recluso em Woodstock, região no interior do estado de NY, e “a banda” o acompanhou no exílio. Enquanto gravavam com Dylan o material que posteriormente saiu no álbum The Basement Tapes, eles começaram a trabalhar no seu próprio disco.
Gravado no porão da casa em que boa parte da banda morava em Woodstock, chamada de Big Pink (daí o titulo do disco), o álbum apresentou pela primeira vez as composições intrigantes e a guitarra crua e pontuda de Robbie Robertson, o vibrante baixista e vocalista Rick Danko, o genial multi-instrumentista Garth Hudson, o pianista e dono de uma voz sublime Richard Manuel e o cantor-baterista Levon Helm (único americano da banda), cuja musicalidade transmite toda sua herança musical do sul dos EUA. Juntos, os três cantores da banda fizeram trabalhos de harmonia vocal incríveis.
A falta de publicidade, de shows e entrevistas de divulgação não impediu que Music From Big Pink virasse um sucesso imediato, influenciando rapidamente gente como Eric Clapton e George Harrison. Na verdade, a reclusão dos membros da banda só aumentou as especulações em torno de suas figuras. Quando começaram as aparições públicas, as pessoas notaram que, assim com a música, os músicos também pareciam vir das montanhas, com suas roupas rústicas e barbas.
O disco que viria depois, batizado apenas como The Band, em minha opinião, é ainda melhor. O clima de enigma permanece, mas o forte teor histórico e cultural presente nas faixas dão uma força incrível ao álbum. Todas as músicas foram compostas por Robbie Robertson, sendo duas em parceria com Richard Manuel e uma com Levon Helm, o que não diminui em nada o senso de coletividade na audição.
Logo na primeira faixa, Across the Great Divide, Richard Emanuel dá um show de interpretação. Rag Mama Rag, a segunda música, mostra a versatilidade da banda, com Richard na bateria, Levon Helm cantando e tocando mandolin, Rick Danko na rabeca e o produtor John Simom na tuba (a musica não tem baixo). Porém, o destaque, pra mim, é o piano de Garth Hudson.
The Night They Drove Old Dixie Down é a terceira faixa do disco e um dos hinos da banda - uma aula de história escrita por Robbie Robertson e interpretada por Levon Helm numa performance de arrepiar. A letra resgata a vida no sul dos EUA contada do ponto de vista de Virgil Caine, um fazendeiro do Tennessee que serviu ao exército confederado e luta para sobreviver com sua esposa – a música quebra o estereótipo do sulista redneck e escravocrata, um tema caro até hoje para muita gente nos EUA. Na verdade, o álbum inteiro é inspirado no sul dos Estados Unidos. A Guerra Civil Americana, assim como as feridas deixadas por ela, é um dos temas abordados. Dessa forma, o crítico musical e cientista social Greil Marcus, define The Band como “um passaporte de volta para pessoas que se tornaram estranhas em seu próprio país”.
Up On Cripple Creek, faixa 5, foi o compacto de maior sucesso da banda, onde o clavinete tocado com pedal wah-wah por Garth Hudson, que dá uma pitada de funk à musica é o grande destaque. A música seguinte é Wispering Pines, um belo exemplo da capacidade vocal de Richard Manuel. Na penúltima música, The Unfaithfull Servant, é a vez de Rick Danko brilhar na interpretação. Finalmente, o disco fecha com King Havest (Has Surely Come), outro momento de coletividade brilhante. Apesar de ter citado só algumas preferidas, o álbum inteiro esbanja criatividade. Assim como num disco de Ray Charles (grande ídolo de Richard Manuel), a música pode soar religiosa num momento para, em seguida, parecer profana.
“A Banda” seguiu lançando discos com sua formação clássica até 1976, quando Robbie Robertson largou o grupo definitivamente depois do projeto The Last Waltz, um sensacional filme-concerto dirigido por Martin Scorsese e produzido pelo próprio Robbie. Mas sem dúvida, The Band é seu disco mais consistente.
Na década de 1980, The Band voltou sem o seu guitarrista original e principal compositor, mas encerraram atividades após Richard Emanuel cometer suicídio. “A Banda” ainda voltaria com outra formação na década de 1990, mas outra tragédia forçou seus integrantes a pararem mais uma vez: o falecimento de Rick Danko devido a uma parada cardíaca.
Essa é história da The Band contada de forma breve (mas com respeito e admiração). Pra mim, ela soa exatamente como a voz de Richard Manuel: linda, mas revestida de um profundo senso de melancolia.



