segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Em 2010, é Twitter na cabeça.

Em sua passagem pelo Brasil em outubro, Biz Stone, fundador do Twitter, declarou de forma clara que o “microblog”, como o Twitter é chamado, não é uma rede social, e sim uma rede de informações. É verdade. Diferente dos Facebooks ou Orkuts da vida, o Twitter representa uma nova e espontânea forma de propagação de conteúdo, fatos e idéias. Pode ser a estréia de um filme em Hollywood, um comício na Palestina ou um tribunal em Paris: o fato é que através do Twitter, as pessoas compartilham o que acontece em qualquer lugar do mundo e (o mais importante) em tempo real.

Apesar de ainda estar em pleno crescimento como ferramenta de troca de informações, é difícil apontar com exatidão os rumos que o Twitter vai tomar. Muitos dos 44 milhões de cadastrados no site, não usam a ferramenta. Afinal, nem todo mundo tem disponibilidade para ficar relatando o que está fazendo ou no que está pensando o tempo todo. No entanto, é no mínimo razoável dizer que ele irá se firmar ainda mais como instrumento de busca de conteúdo e informações.
Levando o assunto para o ambiente corporativo, parece notório que as empresas ainda estão descobrindo a melhor forma de usar o Twitter, seja como ferramenta de relacionamento com seu público, seja na forma de incluí-lo como parte do mix de marketing e promoção.
De minha parte, estou ansioso mesmo é para ver como o Twitter será usado nas campanhas eleitorais brasileiras de 2010. Acredito veemente que o microblog é um instrumento fantástico para este tipo de processo. Através dele, os eleitores poderão saber exatamente como os candidatos estão se movimentando no tabuleiro eleitoral. Ou seja, com quem estão reunidos, o que estão dizendo nas palestras em universidades, sindicatos, quais comunidades estão visitando, e tudo em tempo real. O mais importante, porém, é que o Twitter tem tudo para se tornar um meio de inclusão política, principalmente para a população mais jovem. Afinal, trata-se de uma ferramenta extremamente eficiente para debates e propagação de ideais, além de carregar um enorme potencial para mobilizar e agrupar pessoas com gostos e opiniões parecidas. Não há dúvidas de que o Twitter também será mais que monitorado de perto pelas equipes de marketing dos candidatos e também pelos analistas políticos. Sem jingles e sem slogans, o Twitter deve ser a sensação das Eleições 2010.

domingo, 22 de novembro de 2009

Guitarman from Central Park


“A pessoa mais famosa de Nova York que ninguém conhece”. Apesar de adorar o texto do cartaz, não demos muita bola para o pequeno show que o International Hostel de Nova York estava oferecendo para seus hóspedes. Isso, até o dia em que, chegando ao albergue depois de mais um dia de longas caminhadas, escutamos um som vindo de uma das salas do prédio situado na Amsterdan Avenue, 103. Era “No Reply” dos Beatles – o convite que precisávamos. A partir daí, tivemos um dos momentos mais divertidos (e inusitados) da viagem.
O “Guitar Man from Central Park” é uma figuraça. Tocando para uma platéia de 30 a 40 pessoas vindas dos mais diferentes lugares do mundo, ele conversava com todos, tentava decorar o nome a nacionalidade de cada um, contava histórias de sua vida e, entre músicas pedidas pelo animado público, apresentava suas próprias composições. David Ippolito é o nome do cara. E ele se garante: toca e canta muito bem, como pudemos conferir em Beware of Darkness de George Harrison ou Like a Rolling Stone de Dylan. Momentos antes dessa última, confessou que já morou nas ruas, foi viciado em drogas e, depois de se recuperar, acredita que entendeu o real significado da letra. Em seu site, ele diz que nessa época “se viu em lugares que hoje não gostaria de voltar”, que “não estava atuando, mas dizia ser ator e não estava compondo, mas dizia ser compositor” e completa assumindo que “tinha um louco desejo por fazer ambas as coisas, mas não tinha nada de importante pra dizer ao mundo”. Após anos vivendo de favor, David Ippolito parou de se drogar e gastou todo o seu dinheiro num pequeno amplificador, que levou para o Central Park. Neste dia, ele começou tocando para 3, 4 pessoas e, quando o sol estava se pondo, havia mais de 500 pessoas cantando com ele. Para sua surpresa, uma delas era Jack Rosenthal, editor sênior no New York Times que, no dia seguinte, publicou um artigo sobre o “concerto espontâneo no parque”. Depois disso, David Ippolito passou a se apresentar regularmente não só no Central Park, mas também em várias casas de show de Nova York, além de ter lançado 5 discos, sempre com direito a coberturas nos jornais, revistas e até programas de TV da cidade. As pessoas podem até dizer que essa é uma estória batida: vício, fundo do poço e, depois, recuperação. De fato, muita gente já viu esse filme. Mas assistir um trechinho ao vivo e a cores é bem mais emocionante.
Daquela noite fria de 20 de novembro de 2008 ficou uma lição de vida e também uma música chamada “Crazy on The Same Day”, original de David Ippolito, que trouxemos no CD de mesmo nome e que se tornou a trilha sonora da viagem.

domingo, 15 de novembro de 2009

"Enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais". Jack Kerouac

Sempre vi a Geração Beat como os roqueiros da literatura: um grupo de escritores e poetas insatisfeitos com a alienação, o comodismo, a hipocrisia e o falso-moralismo que reinava nos Estados Unidos pós-segunda guerra mundial. Na primeira vez que vi a foto acima, com  Bob Donlin, Neal Cassady, Allen Ginsberg, Robert LaVigne e Lawrence Ferlinghetti, pensei: eles parecem uma banda!
Geralmente, quando as pessoas se referem à literatura Beat, Jack Kerouac ou seu clássico On the Road são os primeiros a serem lembrados. Eu, por exemplo, sou um dos que tive a vida marcada por este livro: um manual de espontaneidade, liberdade e ruptura, escrito de forma alucinada durante três semanas em abril de 1951, num rolo de papel de 36 metros, sem pontuação ou parágrafos e sob o efeito de benzedrina.
Junto com Kerouac, Allen Gisnberg e William Burroughs são os autores beats mais famosos. Não tenho muita intimidade com a obra de Burroughs, mas acho os poemas de Ginsberg tão fortes e instigantes quanto a prosa jazística de On the Road. Nascido em Nova Jersey, 1926, Allen Ginsberg foi a perfeita encarnação do poeta maldito, um rebelde que, apesar do estilo de vida excessivamente intenso e desregrado, só parou de produzir quando foi vítima de um câncer aos 70 anos de idade. Seu poema mais cultuado, Howl (uivo), segundo o próprio autor, é um protesto contra a automatização desumana da cultura americana, uma ode às minorias e à compaixão humana do indivíduo. Em vida, Ginsberg conheceu o sucesso e se tornou uma celebridade mundial. Conviveu com Bob Dylan, com os Beatles, com o The Clash e até dividiu o palco com Paul McCartney, Patty Smith e Sonic Youth, entre outros. Sempre envolvido em atividades culturais e movimentos sociais diversos, Allen Ginsberg manteve sua integridade artística por toda sua vida, estimulando o estudo da poesia mundo afora, chegando a criar uma universidade de estudos literários, o Naropa Institute, que dirigiu até o fim de sua vida.
O que tanto me atrai na obra desses escritores é a sua eterna busca – a busca pela liberdade, pela felicidade, pela salvação, por um nível de consciência superior e, acima de tudo, pelo autoconhecimento. A busca que levou esses autores - eles próprios personagens fantásticos – a cair na estrada ou flertar com filosofias orientais, relatando depois estas experiências, é a mesma que leva milhões de almas inquietas a lerem esses relatos até hoje. Para essas pessoas, livros como Os Vagabundos Iluminados, de Kerouac, ou poemas como America, de Allen Gisnberg, sempre serão um caminho – mesmo que este aponte, quem sabe, para uma estrada qualquer.

América eu te dei tudo e agora não sou nada.
América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro de 1956.
América não agüento mais minha própria mente.
América quando acabaremos com a guerra humana?
Vá se foder com sua bomba atômica.
Não estou legal não me encha o saco.
Não escreverei meu poema enquanto não me sentir legal.
América quando é que você será angelical?
América quando você tirará sua roupa?
Quando você se olhará através do túmulo?
Quando você merecerá seus milhões de trotskistas?
América por que suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?
América quando você mandará seus ovos para a Índia?
Eu estou cheio das suas exigências malucas.

(trecho do poema “América”, de Allen Ginsberg).


Allen Ginsberg

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O muro é aqui.


As comemorações pelos 20 anos da Queda do Muro de Berlim servem para algumas reflexões, até porque as imagens dos alemães festejando de ambos os lados da “fronteira”, enquanto derrubavam o ícone da Guerra Fria, ultrapassam questões políticas e ideológicas. A multidão estava ali celebrando o direito se expressar, de poder ir e vir, de ultrapassar uma barreira não só de espaço, mas também de tempo (o muro foi construído em 1961). A festa era pela liberdade, condição inexistente na República Democrática Alemã, a Alemanha Oriental - o filme “A Vida dos Outros”, de 2006, mostra bem o trabalho da Stasi, polícia secreta que monitorava (e manipulava) o cotidiano das pessoas na Alemanha Comunista. O vigésimo aniversário da Queda do Muro é mais uma oportunidade para reafirmar a importância do direito de escolha, de ter opções, de ter opiniões e poder expressá-las.
Infelizmente, outros muros não caíram junto com este que separou a Alemanha e o mundo continua cheio de barreiras. Algumas são construídas em cima de questões históricas, como no caso dos conflitos do Oriente Médio (também com direito a muro, literalmente). Outras barreiras são calcadas no preconceito, seja este religioso, racial, comportamental ou de qualquer outra espécie. Alguns muros são resultados da soma desses dois fatores, como os problemas recentes de imigração na Europa.
O Brasil, por exemplo, é um país de muitos muros, sendo o maior deles a desigualdade social. Como conseqüência, vemos subir muitos outros. Alguns muros são visíveis e já viraram paisagem, como os dos condomínios privados ou os vidros dos carros fechados nos sinais de trânsito. De um lado, o medo e a insegurança. Do outro, a frustração e a revolta. De ambos os lados a insegurança, o estresse, a paranóia e o isolamento. Essas características psicológicas também são muros, que apesar de não serem físicos, de tão reais são quase palpáveis. Estes, em minha opinião, são bem mais difíceis de derrubar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Quem precisa de mais um DVD ao vivo de Paul McCartney?


A música de Paul McCartney é minha amiga mais antiga; uma fiel companheira que me acompanha desde os nove anos, quando escutei o álbum triplo ao vivo Wings Over America do meu pai. Já no meu aniversário de 10 anos pedi de presente a minha mãe o LP Flowers In The Dirt. Em seguida mergulhei de cabeça nos discos dos Beatles e também na carreira pós Fab Four.
Prestes a começar uma nova turnê com previsão de vinda para o Brasil, Sir Paul está lançando mundialmente um novo registro ao vivo. Good Evening New York City está saindo no final do mês em dois formatos: um álbum duplo com DVD e uma versão de luxo com um segundo DVD bônus. O material cobre as três apresentações feitas em julho deste ano na comemoração de abertura do estádio de Baseball Citi Field, em Nova York, construído para substituir o Shea Stadium, onde os Beatles fizeram uma apresentação histórica em 1965 (quem já viu o Beatles Anthology sabe do que estou falando).
Este será o quarto DVD ao vivo lançado por Paul McCartney desde 2002, quando saiu o Back In US. Em seguida vieram o Live In Red Square e o The Space Within Us, sem falar do material que saiu na coletânea de vídeos The McCatney Years e no Box do Live 8, quando ele abriu e fechou o evento. Mas o que esse lançamento tem de especial em relação aos últimos DVDs de Paul McCartney? A banda que o acompanha, excelente por sinal, é a mesma. O set list, com a exceção de 4 ou 5 números, também é o mesmo. Aparentemente o Good Evening New York City não parece oferecer muitas novidades.
Paul McCartney é, pra mim, o maior músico de todos os tempos. Multi-instrumentista e autor de uma obra que dispensa comentários, ele envelheceu com sua integridade artística intacta – basta escutar o Chaos And Creation In The Backyard (2005), onde toca todos os instrumentos na maioria das músicas ou o Eletric Arguments (2008), projeto de música experimental em parceria com o produtor Youth.
Quando a gente cresce, passa a acreditar cada vez mais no “I know, it’s only rock’n roll but I like it” dos Stones. Mas no caso de Sir Paul e dos Beatles, é impossível dizer que é “só” rock’n roll. Aquelas músicas provocam reações que vão muito além de um simples gostar: elas emocionam, instigam, comovem, alegram e entristecem também - principalmente quando pensamos que Paul McCartney, assim como John Lennon e George Harrison, não vai viver pra sempre.
Quem precisa de mais um DVD ao vivo de Paul McCartney? Talvez quem queira sentir emoções mais intensas que um simples “gostar”.



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O papel da Internet nos processos eleitorais.


A vitória de Barack Obama está completando um ano. Pra quem se interessa por política e marketing eleitoral, como eu, as eleições estadunidenses de 2008 foram espetaculares de se acompanhar – não por acaso, o trabalho de conclusão do MBA em Marketing que fiz tratou do papel das novas mídias na vitória de Obama. Afinal, o atual presidente americano e sua equipe foram pioneiros na maneira em que usaram a internet para propagar mensagens, arrecadar dinheiro e mobilizar politicamente os eleitores. Pela primeira vez, o debate político foi além dos grandes veículos de comunicação para ser realizado na “blogosfera”. Ao adotar o ambiente on-line, Obama incluiu os jovens no diálogo, o que também foi determinante para a sua vitória. Numa época de diversificação e segmentação de públicos como a nossa, ele obteve mais de dois terços dos votos de eleitorados específicos como negros, latinos e eleitores debutantes. Levando essa fatia para si, Obama pode vencer em estados onde os democratas nunca imaginaram ser possível. A internet também foi responsável por 87% de toda a arrecadação da campanha do então senador de Illinois, sendo que 93% dos doadores contribuíram com menos de US$ 100.

Para as eleições presidenciais brasileiras de 2010, a justiça eleitoral - que em 2006 restringiu o uso da internet somente à página oficial do candidato destinada à campanha - deve finalmente se render a Internet. Quem sabe, a partir da inclusão digital, o debate político e eleitoral brasileiro ganhe um novo gás e a sociedade, que anda tão descrente, assuma o papel de protagonista no processo democrático.