Em 2008, escrevi um artigo para o Jornal do Commercio, no qual fiz um balanço da propaganda eleitoral praticada para as eleições municipais daquele ano. O tema sempre me interessou. Na graduação, fiz um extenso trabalho sobre o marketing político de Fernando Collor em 1989 e, mais recentemente, desenvolvi minha monografia para o curso de MBA em Marketing abordando o papel das novas mídias na campanha de Barack Obama.
Mas voltando ao texto, ele é mais uma reflexão sobre o dia a dia de um eleitor comum cercado pelas campanhas eleitorais do que uma análise técnica sobre publicidade ou marketing. Com uma nova eleição prestes a ganhar as ruas (e também a internet, finalmente), acho que vale a pena voltar ao tema. Segue baixo o artigo.
Photoshop, photoshop meu...
Um olhar geral pela atual propaganda eleitoral praticada pelos candidatos e partidos desperta algumas observações. Em relação ao horário político gratuito no rádio e na televisão, analisando superficialmente, pouca coisa mudou. Os que têm mais recursos e tempo apresentam uma produção mais caprichada, com edições, jingles e slogans mais elaborados e atraentes. Os que não têm, tentam se fazer escutar quase à tapa naquele curtíssimo espaço de tempo.
Não é a toa que muitos consideram esta a parte mais interessante do guia. É aqui que vemos as pessoas “reais”, com suas expressões, olhares, vozes, coragem (às vezes cara-de-pau, mesmo), origens e, de vez em quando, até idéias.
Em outra frente de batalha, vem a propaganda nas ruas. Ao andar pelo Recife nestes tempos eleitoreiros, duas coisas chamam a atenção. A primeira foi a diminuição do número de entregadores de material publicitário dos candidatos nos sinais, os famosos panfletos, flyers, santinhos, calendários, etc.
Além de nós, cidadãos, que todos os dias éramos obrigados a juntar uma quantidade absurda de papel, a cidade e o meio-ambiente também agradecem essa redução, já que os impressos representavam um problemão para a nossa precária infra-estrutura. Apesar disso, não estamos livres de um outro tipo poluição: a visual. O responsável por esta, são os chamados prismas, aquelas peças com a foto do candidato que disputam espaço com os pedestres nas calçadas da cidade.
Se acreditarmos nos discursos dos candidatos, que se dizem tão afinados com práticas sustentáveis, a preocupação com possíveis danos ao meio-ambiente este ano será menor. Sendo assim, o que incomoda tanto em relação aos prismas? Seria o bizarro colorido que o conjunto total representa? Ou os tijolos deixados nas calçadas após serem usados para sustentar as peças diante da ventania (uma pena, pois seria divertidíssimo ver enormes rostos sorridentes voando pelas ruas, carregados pelos fortes ventos da primavera)! Estou falando do uso exagerado de programas de manipulação de imagem usados para dar um trato, digamos assim, nas fotos de alguns candidatos.
É certo que são ferramentas fantásticas e representam um enorme avanço na criação e produção da comunicação visual. Mas como tudo o que é bom, deve-se saber a medida de usá-lo. Reparem no desfile gratuito de dentes branquinhos, peles de nenê e cabeleiras fartas e brilhosas. Ou como aquele candidato ou candidata que, na TV, fala do alto da experiência que só a idade lhe proporciona, na foto da esquina está, digamos... Diferente.
Esta, no entanto, não é uma questão que diz respeito somente à publicidade e à propaganda. O uso da tecnologia digital no jornalismo de imagem também tem despertado polêmica. Um caso recente foi o suposto acréscimo de fogos de artifício à transmissão da abertura dos jogos olímpicos de Pequim. Para o fotojornalismo, por exemplo, o tema parece ser bastante delicado. Afinal, quem nunca viu uma imagem ou fotografia na internet e se perguntou se aquilo era verdade ou montagem?
Obviamente a imagem é parte fundamental da comunicação. E na propaganda política, especificamente, se trata de uma poderosa arma eleitoreira. No entanto, diante do alto sentimento de desconfiança dos brasileiros em relação à classe política nativa, me parece que o desejo coletivo é de ver candidatos mais “reais”, que não tem medo se expor suas imperfeições físicas nem humanas - candidatos mais parecidos com aqueles citados no início deste texto, e não bonecos e bonecas de porcelana.
O fato é que, os que entram para a política já deviam saber que, na vida, ainda mais se tratando de trajetórias públicas, a maneira mais eficiente e honesta de se construir uma imagem não é com photoshop. Mas com atitudes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário