domingo, 21 de março de 2010

Lembrando Ayrton Senna.

Se estivesse vivo, Ayrton Senna completaria hoje 50 anos de idade, data que está sendo muito bem lembrada na internet e também na Rede Globo. Senna foi um dos grandes heróis da minha infância e hoje continua um ídolo pessoal, mais pelo exemplo de dedicação e pelo que fez nas pistas do que por essa história de “herói nacional” ou “do tempo em que valia a pena acordar cedo aos domingos” (pra quem gosta de corridas, como eu, sempre vale).
É inegável que Senna foi um gênio das pistas. Além disso, tinha carisma e uma vocação imensa para atrair os holofotes e ser protagonista, o que também explica o fascínio que sua figura exerce sobre as pessoas em todo o mundo. E sua morte prematura, ainda mais da maneira que aconteceu, só ajudou a alimentar o mito. Quando morei no Japão, no começo da década de 90, pude ver de perto o fanatismo dos orientais pelo piloto brasileiro – coisa que só seus títulos guiando carros impulsionados por motores Honda não justifica. Daí que, lendo o blog do jornalista Flavio Gomes, me deparei com um vídeo (youtube) de um programa humorístico japonês que tem Senna como convidado. Detalhe: eu vi esse programa na noite em que ele foi veiculado, em minha casa na cidade de Toyama. O programa era muito popular e costumava receber esportistas famosos para disputas com um dos dois comediantes que faziam o show. Lembro de ver Zico e Maradona participando de disputas de pênalti e Michael Jordan jogando basquete. No caso de Senna, foi o Kart. Ao rever as cenas pelo youtube, me veio à memória a ansiedade generalizada que o anúncio da presença do piloto no programa causou. Na escola onde estudei, por exemplo, só se falava nisso.
Como o próprio Gomes colocou, o programa mostra um Senna diferente do que estamos acostumados a ver nas homenagens póstumas. O vídeo mostra uma pessoa divertida, sempre se esforçando para entrar na brincadeira do caricato e inocente humor japonês. Há momentos engraçadíssimos, como o episódio do boné na segunda parte, além de um sarro com Prost e Mansell. Durante todo o programa, a idolatria pelo brasileiro fica evidente, seja nas atitudes dos comediantes, seja na reação da platéia no estúdio a cada ação de Senna.
Segue abaixo a primeira parte do vídeo. As seguintes podem ser vistas a partir dela. Como Senna fala inglês, é possível entender bem o rumo das conversas. Além disso, ele dá um show no kart.

De olho na propaganda e no marketing eleitoral.

Em 2008, escrevi um artigo para o Jornal do Commercio, no qual fiz um balanço da propaganda eleitoral praticada para as eleições municipais daquele ano. O tema sempre me interessou. Na graduação, fiz um extenso trabalho sobre o marketing político de Fernando Collor em 1989 e, mais recentemente, desenvolvi minha monografia para o curso de MBA em Marketing abordando o papel das novas mídias na campanha de Barack Obama.
Mas voltando ao texto, ele é mais uma reflexão sobre o dia a dia de um eleitor comum cercado pelas campanhas eleitorais do que uma análise técnica sobre publicidade ou marketing. Com uma nova eleição prestes a ganhar as ruas (e também a internet, finalmente), acho que vale a pena voltar ao tema. Segue baixo o artigo.

Photoshop, photoshop meu...
Um olhar geral pela atual propaganda eleitoral praticada pelos candidatos e partidos desperta algumas observações. Em relação ao horário político gratuito no rádio e na televisão, analisando superficialmente, pouca coisa mudou. Os que têm mais recursos e tempo apresentam uma produção mais caprichada, com edições, jingles e slogans mais elaborados e atraentes. Os que não têm, tentam se fazer escutar quase à tapa naquele curtíssimo espaço de tempo.
Não é a toa que muitos consideram esta a parte mais interessante do guia. É aqui que vemos as pessoas “reais”, com suas expressões, olhares, vozes, coragem (às vezes cara-de-pau, mesmo), origens e, de vez em quando, até idéias.
Em outra frente de batalha, vem a propaganda nas ruas. Ao andar pelo Recife nestes tempos eleitoreiros, duas coisas chamam a atenção. A primeira foi a diminuição do número de entregadores de material publicitário dos candidatos nos sinais, os famosos panfletos, flyers, santinhos, calendários, etc.
Além de nós, cidadãos, que todos os dias éramos obrigados a juntar uma quantidade absurda de papel, a cidade e o meio-ambiente também agradecem essa redução, já que os impressos representavam um problemão para a nossa precária infra-estrutura. Apesar disso, não estamos livres de um outro tipo poluição: a visual. O responsável por esta, são os chamados prismas, aquelas peças com a foto do candidato que disputam espaço com os pedestres nas calçadas da cidade.
Se acreditarmos nos discursos dos candidatos, que se dizem tão afinados com práticas sustentáveis, a preocupação com possíveis danos ao meio-ambiente este ano será menor. Sendo assim, o que incomoda tanto em relação aos prismas? Seria o bizarro colorido que o conjunto total representa? Ou os tijolos deixados nas calçadas após serem usados para sustentar as peças diante da ventania (uma pena, pois seria divertidíssimo ver enormes rostos sorridentes voando pelas ruas, carregados pelos fortes ventos da primavera)! Estou falando do uso exagerado de programas de manipulação de imagem usados para dar um trato, digamos assim, nas fotos de alguns candidatos.
É certo que são ferramentas fantásticas e representam um enorme avanço na criação e produção da comunicação visual. Mas como tudo o que é bom, deve-se saber a medida de usá-lo. Reparem no desfile gratuito de dentes branquinhos, peles de nenê e cabeleiras fartas e brilhosas. Ou como aquele candidato ou candidata que, na TV, fala do alto da experiência que só a idade lhe proporciona, na foto da esquina está, digamos... Diferente.
Esta, no entanto, não é uma questão que diz respeito somente à publicidade e à propaganda. O uso da tecnologia digital no jornalismo de imagem também tem despertado polêmica. Um caso recente foi o suposto acréscimo de fogos de artifício à transmissão da abertura dos jogos olímpicos de Pequim. Para o fotojornalismo, por exemplo, o tema parece ser bastante delicado. Afinal, quem nunca viu uma imagem ou fotografia na internet e se perguntou se aquilo era verdade ou montagem?
Obviamente a imagem é parte fundamental da comunicação. E na propaganda política, especificamente, se trata de uma poderosa arma eleitoreira. No entanto, diante do alto sentimento de desconfiança dos brasileiros em relação à classe política nativa, me parece que o desejo coletivo é de ver candidatos mais “reais”, que não tem medo se expor suas imperfeições físicas nem humanas - candidatos mais parecidos com aqueles citados no início deste texto, e não bonecos e bonecas de porcelana.
O fato é que, os que entram para a política já deviam saber que, na vida, ainda mais se tratando de trajetórias públicas, a maneira mais eficiente e honesta de se construir uma imagem não é com photoshop. Mas com atitudes.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Menos razão e mais sentimento.

Assisti ao filme A Cor do Paraíso pela primeira vez numa aula de história da arte, ainda na universidade, e me marcou muito, contribuindo para quebrar meus preconceitos com o cinema feito fora de Hollywood.
A produção é iraniana e conta a história de um menino cego de 8 anos, órfão de mãe, que estuda numa escola especial. Quando seu pai resolve se casar de novo, ele vê o filho como um embaraço. O filme deu notoriedade mundial ao diretor Majid Majidi e é de uma sensibilidade cortante. Talvez porque estamos todos desacostumados a ser sensíveis. Bom, a cena abaixo diz tudo.


quinta-feira, 11 de março de 2010

Vai começar.

A Formula 1 está de volta neste fim de semana. Quando os 24 carros inscritos nesta temporada derem largada às 9h (horário de Brasília) para o GP do Bareihn, vai começar um dos campeonatos mais interessantes dos últimos tempos. Não faltam argumentos para chegar a essa conclusão: o primeiro deles, em minha opinião, é a volta do heptacampeão Michael Schumacher, agora pilotando para a Mercedes, que comprou a Brown, equipe campeã do ano passado. Também veremos 3 times novos, cinco pilotos estreantes e quatro campeões do mundo juntos no grid.
Há também as mudanças no regulamento. Em 2010, pontuam os dez primeiros colocados. O fim do reabastecimento é outra alteração que deve ser decisiva e levará a estratégias completamente diferentes das que vimos nos últimos anos. Por ultimo, os pneus: os dez primeiros do grid terão de largar com os pneus usados no Q3, última e decisiva fase do treino que define o pole position e demais colocações.
Quanto às chances brasileiras, teremos quatro pilotos e situações bem distintas. No fundo do grid, Lucas Di Grassi e Bruno Senna. O primeiro chega à F1 depois de muita luta e já apresentou seu talento nas categorias de base, mas vai guiar pela Virgin, uma das três equipes estreantes, e que dividiu o fundão das tabelas nos testes da pré-temporada com a colega iniciante (falsa) Lotus.
Bruno Senna vai fazer a alegria dos saudosos do seu tio Ayrton, levando de volta à categoria o lendário sobrenome e o capacete amarelo com listra verde. Mas a verdade é que ele vai precisar de muita sorte, já que sua equipe, a Hispania Racing Team, não fez um teste sequer. Velocidade, ele mostrou que tem. Mas sua curta carreira no automobilismo não nos deixa dizer muito mais que isso.
Já Rubens Barrichello deve andar na zona de pontos. Salvo um grande salto de competitividade da Williams, dificilmente vai brigar por vitórias, coisa que a lendária equipe não consegue há muito tempo.
Na ponta, Felipe Massa. Depois do que a Ferrari mostrou na pré-temporada, é justo colocá-lo entre os favoritos ao título. Mas para isso acontecer, Massa precisa andar na frente do bicampeão Fernando Alonso, considerado por muitos o melhor piloto da atualidade. Resta saber se esse favoritismo da equipe de Maranello vai se concretizar. Especialistas têm apontado Red Bull e McLaren também como candidatas ao título, com a Mercedes logo atrás. Agora, é esperar o fim de semana pra ver.


O exílio dos stones.

Há alguns dias, saiu a notícia de que o Exile On Main St, clássico dos Rolling Stones de 1972, será relançado em três formatos diferentes: o álbum original remasterizado, um CD duplo com 10 faixas inéditas acrescentadas e, por fim, uma caixa de luxo com o álbum duplo em vinil, um livro de 50 páginas e um DVD com o documentário inédito Stones in Exile, que será exibido pela BBC no dia 17 de maio, data também marcada para o relançamento do álbum.
Objeto de culto até hoje, o Exile... é um disco tão sensacional quanto a história do seu processo de gravação. Existem, inclusive, vários livros retratando as aventuras dos Stones neste período em que eles se “exilaram” no sul da França para fugir dos impostos ingleses, compor, gravar e, principalmente, fazer muita farra. Um deles, talvez o mais famoso registro, ganhou uma edição brasileira, o Uma temporada no inferno com os Rolling Stones, de Robert Greenfield, lançado pela Jorge Zahar Editora.
Mas falando de música, o Exile On Main St lembra em alguns aspectos o álbum branco dos Beatles pela sua diversidade e espírito anárquico. Mas apesar de toda a liberdade artística usufruída pela banda, há unidade entre as músicas: durante todo o disco o som é sujo e maciço (ouça a faixa de abertura, Rocks Off, ou o bluesão Ventilator Blues), o que não quer dizer que não exista momentos de beleza, como  Loving Cup ou Shine a Light. Há também o mega hit Tumbling Dice, com uma das melhores performances vocais de Mick Jagger ou Happy, clássico de Keith Richards . Keith, por sinal, compôs alguns dos seus riffs mais memoráveis e toscos neste disco, o que faz um contraponto excelente com a guitarra de Mick Taylor (que ainda gravaria mais dois discos como um stone), mais técnica e refinada.
Talvez o Exile On Main St não tenha tantas músicas radiofônicas como o Let It Bleed ou a produção caprichada do Stick Fingers, mas é um disco que nos reserva novas descobertas a cada audição e, toda vez que você termina de escutá-lo, ele te deixa com aquele sorriso de quem acordou de ressaca e continua deitado, ainda no clima da festa, se divertindo com as lembranças da última noite.
A revista Rolling Stone americana está com uma ótima entrevista em seu site com Mick Jagger, Keith Richards e Don Was, produtor da banda, sobre este relançamento. Pra conferir, é só clicar aqui.