Sempre vi a Geração Beat como os roqueiros da literatura: um grupo de escritores e poetas insatisfeitos com a alienação, o comodismo, a hipocrisia e o falso-moralismo que reinava nos Estados Unidos pós-segunda guerra mundial. Na primeira vez que vi a foto acima, com Bob Donlin, Neal Cassady, Allen Ginsberg, Robert LaVigne e Lawrence Ferlinghetti, pensei: eles parecem uma banda!Geralmente, quando as pessoas se referem à literatura Beat, Jack Kerouac ou seu clássico On the Road são os primeiros a serem lembrados. Eu, por exemplo, sou um dos que tive a vida marcada por este livro: um manual de espontaneidade, liberdade e ruptura, escrito de forma alucinada durante três semanas em abril de 1951, num rolo de papel de 36 metros, sem pontuação ou parágrafos e sob o efeito de benzedrina.
Junto com Kerouac, Allen Gisnberg e William Burroughs são os autores beats mais famosos. Não tenho muita intimidade com a obra de Burroughs, mas acho os poemas de Ginsberg tão fortes e instigantes quanto a prosa jazística de On the Road. Nascido em Nova Jersey, 1926, Allen Ginsberg foi a perfeita encarnação do poeta maldito, um rebelde que, apesar do estilo de vida excessivamente intenso e desregrado, só parou de produzir quando foi vítima de um câncer aos 70 anos de idade. Seu poema mais cultuado, Howl (uivo), segundo o próprio autor, é um protesto contra a automatização desumana da cultura americana, uma ode às minorias e à compaixão humana do indivíduo. Em vida, Ginsberg conheceu o sucesso e se tornou uma celebridade mundial. Conviveu com Bob Dylan, com os Beatles, com o The Clash e até dividiu o palco com Paul McCartney, Patty Smith e Sonic Youth, entre outros. Sempre envolvido em atividades culturais e movimentos sociais diversos, Allen Ginsberg manteve sua integridade artística por toda sua vida, estimulando o estudo da poesia mundo afora, chegando a criar uma universidade de estudos literários, o Naropa Institute, que dirigiu até o fim de sua vida.
O que tanto me atrai na obra desses escritores é a sua eterna busca – a busca pela liberdade, pela felicidade, pela salvação, por um nível de consciência superior e, acima de tudo, pelo autoconhecimento. A busca que levou esses autores - eles próprios personagens fantásticos – a cair na estrada ou flertar com filosofias orientais, relatando depois estas experiências, é a mesma que leva milhões de almas inquietas a lerem esses relatos até hoje. Para essas pessoas, livros como Os Vagabundos Iluminados, de Kerouac, ou poemas como America, de Allen Gisnberg, sempre serão um caminho – mesmo que este aponte, quem sabe, para uma estrada qualquer.
América eu te dei tudo e agora não sou nada.
América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro de 1956.
América não agüento mais minha própria mente.
América quando acabaremos com a guerra humana?
Vá se foder com sua bomba atômica.
Não estou legal não me encha o saco.
Não escreverei meu poema enquanto não me sentir legal.
América quando é que você será angelical?
América quando você tirará sua roupa?
Quando você se olhará através do túmulo?
Quando você merecerá seus milhões de trotskistas?
América por que suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?
América quando você mandará seus ovos para a Índia?
Eu estou cheio das suas exigências malucas.
(trecho do poema “América”, de Allen Ginsberg).
Allen Ginsberg

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