As comemorações pelos 20 anos da Queda do Muro de Berlim servem para algumas reflexões, até porque as imagens dos alemães festejando de ambos os lados da “fronteira”, enquanto derrubavam o ícone da Guerra Fria, ultrapassam questões políticas e ideológicas. A multidão estava ali celebrando o direito se expressar, de poder ir e vir, de ultrapassar uma barreira não só de espaço, mas também de tempo (o muro foi construído em 1961). A festa era pela liberdade, condição inexistente na República Democrática Alemã, a Alemanha Oriental - o filme “A Vida dos Outros”, de 2006, mostra bem o trabalho da Stasi, polícia secreta que monitorava (e manipulava) o cotidiano das pessoas na Alemanha Comunista. O vigésimo aniversário da Queda do Muro é mais uma oportunidade para reafirmar a importância do direito de escolha, de ter opções, de ter opiniões e poder expressá-las.
Infelizmente, outros muros não caíram junto com este que separou a Alemanha e o mundo continua cheio de barreiras. Algumas são construídas em cima de questões históricas, como no caso dos conflitos do Oriente Médio (também com direito a muro, literalmente). Outras barreiras são calcadas no preconceito, seja este religioso, racial, comportamental ou de qualquer outra espécie. Alguns muros são resultados da soma desses dois fatores, como os problemas recentes de imigração na Europa.
O Brasil, por exemplo, é um país de muitos muros, sendo o maior deles a desigualdade social. Como conseqüência, vemos subir muitos outros. Alguns muros são visíveis e já viraram paisagem, como os dos condomínios privados ou os vidros dos carros fechados nos sinais de trânsito. De um lado, o medo e a insegurança. Do outro, a frustração e a revolta. De ambos os lados a insegurança, o estresse, a paranóia e o isolamento. Essas características psicológicas também são muros, que apesar de não serem físicos, de tão reais são quase palpáveis. Estes, em minha opinião, são bem mais difíceis de derrubar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário