quinta-feira, 11 de março de 2010

O exílio dos stones.

Há alguns dias, saiu a notícia de que o Exile On Main St, clássico dos Rolling Stones de 1972, será relançado em três formatos diferentes: o álbum original remasterizado, um CD duplo com 10 faixas inéditas acrescentadas e, por fim, uma caixa de luxo com o álbum duplo em vinil, um livro de 50 páginas e um DVD com o documentário inédito Stones in Exile, que será exibido pela BBC no dia 17 de maio, data também marcada para o relançamento do álbum.
Objeto de culto até hoje, o Exile... é um disco tão sensacional quanto a história do seu processo de gravação. Existem, inclusive, vários livros retratando as aventuras dos Stones neste período em que eles se “exilaram” no sul da França para fugir dos impostos ingleses, compor, gravar e, principalmente, fazer muita farra. Um deles, talvez o mais famoso registro, ganhou uma edição brasileira, o Uma temporada no inferno com os Rolling Stones, de Robert Greenfield, lançado pela Jorge Zahar Editora.
Mas falando de música, o Exile On Main St lembra em alguns aspectos o álbum branco dos Beatles pela sua diversidade e espírito anárquico. Mas apesar de toda a liberdade artística usufruída pela banda, há unidade entre as músicas: durante todo o disco o som é sujo e maciço (ouça a faixa de abertura, Rocks Off, ou o bluesão Ventilator Blues), o que não quer dizer que não exista momentos de beleza, como  Loving Cup ou Shine a Light. Há também o mega hit Tumbling Dice, com uma das melhores performances vocais de Mick Jagger ou Happy, clássico de Keith Richards . Keith, por sinal, compôs alguns dos seus riffs mais memoráveis e toscos neste disco, o que faz um contraponto excelente com a guitarra de Mick Taylor (que ainda gravaria mais dois discos como um stone), mais técnica e refinada.
Talvez o Exile On Main St não tenha tantas músicas radiofônicas como o Let It Bleed ou a produção caprichada do Stick Fingers, mas é um disco que nos reserva novas descobertas a cada audição e, toda vez que você termina de escutá-lo, ele te deixa com aquele sorriso de quem acordou de ressaca e continua deitado, ainda no clima da festa, se divertindo com as lembranças da última noite.
A revista Rolling Stone americana está com uma ótima entrevista em seu site com Mick Jagger, Keith Richards e Don Was, produtor da banda, sobre este relançamento. Pra conferir, é só clicar aqui.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Guerra ao Terror

Na última sexta-feira, estive no cinema multiplex do Shopping Recife para a exibição do filme Guerra ao Terror (The Hurt Locker, EUA, 2009). A ocasião marcou a abertura da programação especial do UCI Recife dedicada aos filmes que estão concorrendo ao Oscar 2010. O convite me foi feito pelo jornalista e crítico de cinema Bernardo Queiroz, que também é meu primo. Depois da projeção, há sempre um bate-papo com dois críticos convidados, tarefa que, na sexta, ficou a cargo de Bernardo e Leo Peixe.
Guerra ao Terror conta a história de um grupo de soldados americanos, especialistas em desarmar bombas, na guerra do Iraque. A seqüência inicial, que por sinal é fantástica, mostra um conflito peculiar, uma guerra essencialmente urbana, numa atmosfera de paranóia constante vivida pelos soldados, acompanhada de uma contagem regressiva para voltar para casa.
Apesar de a tensão psicológica ditar o ritmo do filme, Guerra ao Terror, em minha opinião, também pode ser visto como um excelente filme de ação, com cenas de combate muitíssimo bem filmadas, alternando seqüências mais “nervosas”, quase como um documentário, com edições mais tradicionais do gênero. Também chama a atenção para o uso de câmera lenta em algumas cenas, que são de tirar o fôlego. Apesar disso, o filme também apresenta momentos de grande sensibilidade, onde os efeitos da guerra no homem são demonstrados na figura do protagonista.
O filme está indicado a nove Oscars. A diretora do filme, Kathryn Bigelow, também está concorrendo à estatueta de melhor direção, prêmio que não dele levar. Nesta categoria, o favorito é seu ex-marido, James Cameron, de Avatar. Mas aos que acham curioso o fato de uma mulher dirigir um filme de guerra, aqui vai um aviso: Guerra ao Terror é um filme para fã do gênero nenhum botar defeito.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Oito anos.

Tudo começou num fim de tarde em Porto de Galinhas. Depois, nas ladeiras de Olinda, selamos um compromisso que foi amadurecendo ao longo dos anos. Nem sempre foi fácil. Às vezes, é difícil até. Mas a gente segue em frente porque a vontade de estar junto é sempre maior do que qualquer dificuldade.
A vida nos reserva pouquíssimas certezas. E a certeza de termos um ao outro é um privilégio – uma verdade que alimenta os nossos mundos, nos faz sonhar, sorrir e nos levanta naqueles momentos em que nada parece se sustentar.
É ela quem sabe das coisas. Mesmo sem morarmos juntos, ainda, ela dá o ritmo às nossas vidas. É ele quem dita meu humor com seus longos silêncios e seus sorrisos iluminados. Meus defeitos, ela os corrige. Ela só não sabe que morro de medo de perdê-la.
Oito anos. É por nós dois que o frevo e o maracatu vão ecoar pelas ruas de Recife e Olinda nos próximos dias.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

“Estou sempre dizendo 'prazer em conhecê-lo' para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer". Holden Caulfield

O primeiro contato que tive com O Apanhador no Campo de Centeio foi lendo algo relacionado a Mark Chapman, assassino de John Lennon. Chapman teria dito que a “explicação” para o seu ato pode ser encontrada nas páginas do livro. Eu tinha uns 15, 16 anos.
Na mesma época, li o livro e o que descobri não foram respostas para um ato de insanidade (até porque loucos não precisam de motivos para cometer loucuras), mas a história de um adolescente que sofre por ter uma sensibilidade extremante aguçada, num mundo cheio de cinismo e falso moralismo. As aventuras de Holden Caulfield, narrador e personagem central do livro, são acompanhadas de suas conclusões pessimistas e cheias de humor negro sobre tudo e todos os que o cercam, inclusive sobre si mesmo – sempre num tom coloquial, com frases que parecem sair da boca do protagonista direto para as páginas do livro.
The Catcher In The Rye (título original de O Apanhador…) foi lançado em 1951 e tornou-se imediatamente um best seller. Seu autor, J. D. Salinger, também ficou famoso por não querer ser famoso e viveu recluso por mais de 50 anos. Ele morreu hoje, aos 91 anos de idade em sua casa, na cidade de Cornish, N.H., Estados Unidos. Sua obra se resume a O Apanhador..., a coleção de contos Nove Estorias, além de duas compilações, cada uma com duas longas estórias.
Numa das passagens mais famosas de O Apanhador no Campo de Centeio (e uma de minhas preferidas), Holden Caulfield diz que livro bom é aquele que, quando a gente termina, tem vontade de ficar amigo do autor e ligar pra casa dele sempre que tiver vontade. Com sua opção pela reclusão, J.D. Salinger frustrou milhões de pessoas que um dia sonharam em trocar algumas palavras com o autor do seu livro preferido.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Cavalheirismo.

(Pegando o embalo publicitário) - Não conhecia esse filme do Chivas. Ótimo texto, mensagem oportuna. Principalmente se avaliarmos que, há tempos, o sentido do termo "ser homem" é distorcido. Em relação ao desfile de terno no final, dêem um desconto. Afinal, é um filme do Chivas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Valor agregado.

Um tio meu (fã de Eric Clapton, vale dizer) admitiu que o aparelho é lindo, mas desaconselhou. A justificativa foi a de que já teve um celular dessa marca e o danado só durou dois meses. “R$ 800,00 jogados no lixo”, disse ele. “E daí? Eu não iria usar como celular mesmo”, respondo eu.




segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Mais uma faceta de Eric Clapton

Apesar de ser, na essência, um músico de blues, Eric Clapton é um artista de discografia eclética. Já gravou pop, funk, soul, raggae, música eletrônica, psicodélica, gospel, country, jazz e, é claro, rock’n’roll. No final da década de 60, no entanto, ele estava numa encruzilhada musical. Depois do imenso sucesso com os Yardbyrds, John Mayall’s Bluesbreakers e Cream - com direito a ter seu nome pichado nas ruas de Londres com os dizeres “Clapton is God” -, o guitarrista estava insatisfeito com o direcionamento de sua carreira e cansado da imagem de virtuose das seis cordas. Em sua autobiografia, ele conta que os shows do Cream haviam se tornado um veículo para o exibicionismo dos seus integrantes, com os três músicos solando ao mesmo tempo, voando alto em seus egos. Na mesma época, ele escutou o álbum de estréia da The Band, Music From Big Pink, e foi arrebatado pela simplicidade e lirismo do disco. A vontade de produzir um som mais voltado para a “música” do que para o virtuosismo culminou no surgimento do Blind Faith, que contava com os amigos Steve Winwood (Traffic) e Ginger Backer (também do Cream). A proposta inicial de criar uma música mais “rica na simplicidade”, no entanto, ficou para trás quando o Blind Faith se viu numa turnê megalomaníaca pelos EUA, com um Clapton acuado no papel de coadjuvante. Somou-se a essa frustração o fato de o guitarrista estar cada vez mais envolvido pelo som produzido pela trupe de Delaney and Bonnie, banda de abertura do Blind Faith.

Delaney e Bonnie Bramlett eram casados, sendo os primeiros artistas brancos a assinar com Stax, famosa gravadora do sul dos EUA, voltada para o soul. A banda de apoio dos Blamletts era formada pela cantora Rita Coolidge, por Jim Price e Bobby Keys nos metais, pelo tecladista Bobby Whitlock, pelo baixista Carl Radle e pelo baterista Jim Gordom. Com o tempo, todos eles se tornariam músicos conhecidos e tarimbados, sendo que os três últimos ainda acompanhariam Clapton no Derek and the Dominos. Em sua biografia, Eric Claton conta que o relacionamento desses sulistas americanos com a música era contagiante. Sua rotina era subir no ônibus com os instrumentos e tocar o dia inteiro. Logo Clapton se viu viajando e andando com eles, deixando de lado a sua banda.
Depois de sua primeira e única turnê, o Blind Faith se desfez e Clapton logo passou a excursionar com os Bramletts, experiência que culminou no disco Delaney e Bonnie and Friends – On Tour With Eric Clapton. Na época, Dalaney começou a convencer Clapton a gravar seu próprio disco e se desenvolver como front man. Meses depois, Eric Clapton estava gravando seu primeiro álbum solo tendo a trupe de Delaney e Bonnie como banda de apoio, além do grande Leon Russel no piano. O disco foi batizado simplesmente de Eric Clapton e o resultado, não por acaso, é uma poderosa mistura de blues-r&b-contry-soul, com o guitarrista caprichando no vocal, nitidamente influenciado pelo estilo gospel de Delaney. No lugar dos longos e furiosos solos dos tempos de Cream, a guitarra de Clapton aqui é econômica e levemente calcada no funk. O disco, coeso e divertido, é realmente uma pérola da música pop e uma prévia do que viria pela frente: o clássico Layla and Other Assorted Love Songs, em minha opinião, um dos melhores álbuns de todos os tempos.
A boa notícia para os fãs brasileiros é que a edição “deluxe” de Eric Clapton ganhou uma versão nacional, um álbum duplo que apresenta em seu disco 1 a versão já conhecida remasterizada e mais alguns extras. A surpresa fica pelo disco dois, que contem o álbum mixado pelo próprio Delaney Bramlett. A diferença é a presença mais constante dos metais no segundo disco, além de alguns cortes e vocais de apoio diferentes. A caixinha, caprichada em fotos e textos, é um verdadeiro presente para quem gosta de música.